Perigo na velhice, solidão começa a ser combatida em várias frentes

A texana Carol Marak, de 68 anos, ajudou os pais a viver com a doença de Alzheimer. Quando eles morreram, Carol, que é divorciada e não tem filhos, se deu conta de que não teria ninguém para ajudá-la com seu próprio envelhecimento. Certo dia, em seu apartamento em Dallas, cortou o dedo num moedor de carne quando preparava uma salada de frango para uns amigos. Teve de sair corredor afora com a mão enrolada num pano, para pedir aos vizinhos que a levassem ao pronto-socorro: “Eu me assustei e não foi assim tão grave”, disse Marak à repórter Judith Graham do Kaiser Health News. “Imagine pessoas como eu que quebram o quadril e têm um longo período de incapacidade e recuperação. O que elas deveriam fazer?”

Por essas e outras, em fevereiro de 2016, Carol Marak lançou uma página de Facebook para encontrar outros americanos na mesma condição. O Elder Orphan Facebook Group (Grupo de Órfãos Idosos em tradução livre) começou com três membros apenas, mas fez tal estardalhaço que já conquistou mais de 9.200 membros. Quinhentos deles responderam a 89 perguntas. Suas respostas desenham os contornos de um grupo cheio de problemas e que cresce a cada dia. Boa parte dos chamados baby boomers vai enfrentar solidão na velhice – nos Estados Unidos, cerca de 29% (13,3 milhões) de idosos não-institucionalizados moram sozinhos. A maioria dessas mulheres são mulheres (9,2 milhões contra 4,1 milhões de homens). Os participantes da pesquisa disseram que:

78%  não têm ajuda com contas, decisões financeiras

55%  não têm ajuda com suas decisões médicas;

70%  não identificaram um possível  cuidador;

35%  não têm ajuda em uma crise;

45%  disseram estar  tristes;

52%  relataram estar sozinhos;

26%  têm três ou mais  doenças crônicas;

31%  tomam cinco ou mais  medicamentos;

19% tinham o risco de se tornarem sem-tetos;

26% temiam perder a casa;

43% não têm testamento vital ou procuração de saúde;

40% relataram um nível médio de estresse;

52% acham que são propensos a sofrer discriminação;

50% não têm acesso a transporte público confiável.

Carol Marak constatou que entre os membros do grupo, aqueles que tem filhos muitas vezes estão mais isolados que os sem descendentes, que costumam criar redes sociais de amigos. “Ter o apoio de alguém quando você está doente e confinado a uma cama é importante para todos, mas nossa pesquisa descobriu que 39% dos participantes do estudo não tinham ninguém para chamar nessa situação. Alguns membros do grupo criaram uma equipe de suporte e se comunicam por um determinado período do dia ou telefonam. Se não houver resposta, eles têm um plano de ação de contingência. Sua estratégia oferece paz de espírito e faz com que os membros sintam que têm alguém com quem contar. Um indivíduo e um grupo de oito amigos o levaram ao extremo; eles se comprometeram a estar lá um pelo outro e até mesmo a servir como guardiões legais na hora da morte. Como grupo, consultaram um advogado que preparou os documentos necessários”.

Em muitos lugares, os governos começam a se preocupar com essa questão. A iniciativa mais visível parece ser a do Reino Unido, onde a conservadora Tracey Crouch, 42 anos, tornou-se ministra da Solidão em janeiro do ano passado. Crouch conhece o assunto: começou a se sentir isolada em 2016, depois de ter seu primeiro filho. Seis anos antes sofrera uma crise de depressão ao se tornar membro do parlamento. Ao criar o cargo, a primeira-ministra Tereza May classificou a solidão como “a triste realidade da vida moderna”.

Mais de nove milhões de pessoas na Grã-Bretanha – velhas, em sua maioria – dizem que se sentem frequentemente ou sempre solitárias. E uma pesquisa feita pela cooperativa de consumidores CO-OP calculou o custo desse estado coletivo: 3,5 bilhões de dólares por ano.

O ministério da Solidão é o legado de Helen Joanne Jo Cox, uma trabalhista morta em 2016 durante a campanha do referendo da União Europeia. Cox, ela própria, não parecia uma vítima da solidão: foi casada com Brendan Cox, conselheiro do Partido Trabalhista e tinha dois filhos, de três e cinco anos de idade quando foi assassinada. Mesmo assim, ela levantou a bandeira da luta contra a solidão explicando que também se sentira isolada após o nascimento de seu primeiro filho. Montou uma comissão, que hoje leva seu nome, depois de testemunhar seus efeitos entre seus eleitores no norte da Inglaterra.

Embora o sentimento seja frequente entre os velhos, os jovens ingleses também não são imunes. O Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido  (ONS) descobriu que pessoas de 16 a 24 anos relataram sentirem-se mais solitárias do que aposentados entre 65 e 74 anos.

Tracey Crouch durou pouco no cargo – renunciou por discordar de decisões envolvendo as loterias britânicas. Não foi substituída, mas deu lugar a uma comissão interministerial encarregada de tocar adiante o plano de ação, intitulado “Uma sociedade conectada: uma estratégia para combater a solidão – lançando as bases para a mudança”, publicado em 15 de outubro de 2018 e que já conta com um fundo de 1,8 milhão de libras, o equivalente a 8,8 bilhões de reais.

O programa inglês obteve o apoio imediato de 21 entidades e prevê o apoio aos sistemas locais de saúde para implementar esquemas de combate à solidão até 2023; recomendação para que médicos e assistentes sociais encaminhem seus pacientes para programas de promoção de amizade; criação de uma rede de empregadores contra a solidão; apoio a empregados solitários.conexões de prescrição social em todo o país até 2023: encorajar os profissionais de saúde e assistência social a encaminharem pacientes para programas de apoio próximos que inspirem amizades e reduzam sentimentos de solidão. O plano ainda prevê o aumento do número de espaços para uso da comunidade e uma parceria para o Correio Real convocar solitários para entregarem correspondência.

O mais recente documento do governo inglês sobre o assunto afirma que a solidão é um perigo: “Um milhão de idosos no Reino Unido podem passar um mês inteiro sem falar com um amigo, vizinho ou familiar. O isolamento social está associado a um aumento de risco de doença cardíaca coronária, em parte, porque o isolamento social e sentimentos de solidão podem causar estresse físico ou psicossocial, resultando em um risco aumentado de resposta inflamatória crônica relacionada ao estresse e comportamento prejudicial à saúde, como fumar. O isolamento social é comum entre os homens mais velhos, particularmente aqueles que viver sozinho. Certos eventos de vida (às vezes chamados de pontos de gatilho) parecem aumentar o risco de se sentir solitário. Eles mudam os relacionamentos de uma pessoa ou a necessidade deles, criando incompatibilidade entre os dois. A solidão pode afetar os cuidadores, muitos dos quais são mulheres e são mais velhos. Mais de oito em dez cuidadores não remunerados descreveram-se como solitários ou socialmente isolados devido às suas responsabilidades de cuidados”.